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Os Sabás na visão do estômago

 

 

Os Sabás, os festivais que marcam a passagem do sol pelo ano, são eventos que têm características comuns a várias culturas, já que esta passagem do sol e das estações definiam o ritmo da vida e das atividades que aconteciam. Usamos mais marcadamente as influencias celtas, mas eram festivais praticamente comuns entre todos os povos de regiões mais frias, que viviam primordialmente da agricultura, com algum acréscimo de comida de caça e coleta.

A comida nestas sociedades, representava a própria vida. Um ano com colheitas ruins era penúria para praticamente todo o povo; a porcentagem de pessoas que trabalhavam diretamente na produção e alimentos era maior que 50%, e o fogo, o calor, a comida, as relações sociais e as tensões decorrentes delas são pontos essenciais para a perpetuação da vida. Assim sendo, de certa forma, cada Sabá, cada comida de Sabá é uma ação de graça, um reconhecimento do que acontece ao redor, e uma conexão com os ciclos da terra, de uma forma que nós dificilmente poderíamos sequer imaginar hoje.

Samhain era o tempo da morte dos animais; o inverno se aproximava e não haveria forragem suficiente para manter a todos vivos. Assim sendo, selecionava-se os reprodutores para o próximo ano e abatiam os demais, enquanto ainda estavam gordos, para salgar, secar e defumar sua carne. O gado bovino e caprino estava gordo das pastagens fartas, o suíno, das bolotas de faia e carvalho. O prato tradicional de Samhaim, o porco, é a carne mais comum e acessível nesta época, já que é um animal que pode consumir tudo, inclusive os rejeitos da alimentação humana. Era também a época das maçãs, a ultima colheita, e maçãs eram a única fruta disponível que se mantinha como alimento fresco durante todo o longo inverno que se aproximava, se bem guardada. Como os próximos alimentos frescos apareceriam meses depois, em Ostara, a disponibilidade desta fruta como forma de evitar doenças, principalmente o escorbuto, era crucial. Isso, sua versatidade, grande produção e a longevidade de suas árvores tornaram a maçã o fruto da vida e abundância. A romã, acrescentada a este Sabá, por vezes, é uma influencia mediterrânea, por sua ligação com o mito de Perséfone. A abóbora, fruto de origem americana, com certeza não estava disponível na época dos antigos celtas, mas por suas características similares às da maçã (grande produção, fácil armazenamento de alimento fresco), também ocupa seu lugar neste Sabá, afora, obviamente, ser utilizada na confecção dos Jack O’Lanterns.

Em Yulle o inverno já é pleno, e os alimentos frescos não estão mais disponíveis. No entanto, ainda há alguma fartura, e, embora seja a noite mais longa do ano, o pior do inverno ainda não passou. Apesar disso, além de celebrar o retorno do sol, o nascimento da criança da promessa, é um festival importante para amenizar o tédio do longo confinamento invernal, e o give away tem como função melhorar as relações, tornadas tensas usualmente por este mesmo confinamento. Assim, Yulle é uma festa de bebidas quentes, seja sidra, vinho ou hidromel, bolos doces com frutas secas, as maças e as castanhas. 

No Imbolc (e o nome desta Sabá significa literalmente, no leite), é final do inverno. Os estoques de comida estão baixos, e se a colheita anterior foi ruim, já é tempo de fome. No entanto, as cabras e ovelhas parem nesta época, trazendo um importante suprimento alimentar nesta época difícil, mas também de esperança, já que com impaciência, os povos se preparam pra primavera que vem, consertam suas ferramentas e esperam os primeiros brotos verdes. É uma festa do fogo também, mas com velas, porque os estoques de lenha estão baixos e ainda há frio a suportar. A comida de Imbolc é leite, obviamente, e mel, caso haja sobrado algum.

Ostara é o equinócio de primavera; a terra já está descongelada o suficiente para ser trabalhada, as pessoas aproveitam os muitos momentos ao ar livre depois do longo e escuro inverno. O primeiro animal que engorda o suficiente para ser comido nesta época com os pequenos brotos verdes é o coelho, daí sua presença nesta festa, e saladas e ovos – as galinhas retomaram a postura que geralmente baixa muito no inverno são parte essencial desta celebração. Para os que franzem a cara para saladas como comida sagrada, imagine que a meses você não come nada fresco, e com que alegria seu corpo receberá um bom suprimento de sais minerais e vitaminas dos quais está carente a muito tempo!

Beltane o verão se aproxima, e as primeiras frutas começam a aparecer, principalmente as frutas pequenas (berries), de maturação mais curta. Os bordos começaram a produzir sua doce seiva, e embora pouco, dá pra se colher o primeiro mel. Desta forma, Beltane é uma festa de doces, e de carne de caça, já que a caça grande por esta época já engordou o suficiente para ser abatida. 

Litha, o solstício de verão, alimentarmente falando, tem características parecidas com Beltane, uma festa de doces e caça, e de verduras, os cereais ainda não estão prontos. Os primeiros pêssegos amadureceram, então experimente fazer uma bebida refrescante com pêssegos, soda ou cidra e água de rosas!

Lammas é a primeira colheita, a de cereais, a base alimentar durante o inverno. E não apenas humana, os animais que forem poupados no Samhaim vão comer da palha destes cereais, e a bebida mais popular a época era a cerveja, também derivada de cereais. A rigor, esta é uma festa da cevada ou aveia, o trigo propriamente dito tem uma maturação mais demorada e sua colheita se dá ao final do ano. Assim sendo, o prato mais importante deste Sabá é o pão, e usualmente o pão (ou biscoito – bem diferente dos cookies, no caso da aveia) era oferecido aos Deuses como agradecimento.

Mabbon é o tempo da fartura; a colheita dos cereais está sendo terminada, inclusive do trigo, as frutas tardias, peras, ameixas, maças estão produzindo, as castanhas e nozes estão prontas para serem coletadas, os animais estão gordos e bem alimentados, as ovelhas, apesar de prenhes, ainda dão leite para os filhotes da última parição, o salmão sobe para desovar nos rios, as trutas estão gordas. Por isso este é o Sabá de ação de graças, é a celebração da fartura e o agradecimento aos Deuses pelo alimento dado. O salmão, as castanhas e frutas são parte integrante deste festival

 

MudWoman.