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 A ciência da Feitiçaria  

 

                                                      

O tema de nossa partilha foi inspirado pela leitura do capítulo quinto da obra O Poder da Bruxa, de Laurie Cabot – a ciência da feitiçaria, e a alusão da escritora Mirella Faur à hipótese do centésimo macaco, retomada por Jean Shinoda Bolen como o milionésimo círculo. Seu objetivo é relacionar a teoria do filósofo-cientista Ruppert Sheldrake, com o que é vivenciado nas práticas esotéricas. 

Quando fala da Feitiçaria como Ciência, Cabot afirma que usa a palavra ciência em seu sentido original, pois “a feitiçaria é um sistema fundamentado em hipóteses que podem ser testadas sob condições controladas” (1999, p. 163). 

Os cientistas da nova física descobriram que nossas mentes operam de acordo com processos quânticos, que existe uma “interação entre partículas subatômicas do nosso cérebro e o campo de energia universal, considerado um oceano quântico de energia. (Theda Basso e Moacir Amaral,2007, teóricos da Escola DEP).

Enquanto a física em geral observa o macrocosmo e o microcosmo, a física quântica estuda a estrutura íntima da matéria. Seu nome deriva dos quanta (pacotes de energia), descobertos por Max Planck. 

Graças ao desenvolvimento da física quântica, crê-se atualmente que os campos formam a base de todas as estruturas atômicas e subatômicas (...) Campos quânticos de matéria, campos eletromagnéticos e campos gravitacionais são de tipos diferentes, mas  todos apresentam as características comuns de regiões de influência, com padrões espaciais específicos ( SHELDRAKE,1995, pp. 73-74).  

Conforme Carlos Cardoso Aveline, (1999, pp. 120-121), embora Sheldrake não fale de ocultismo nem de sabedoria eterna em seus textos científicos destinados a discutir a hipótese dos campos mórficos, pessoalmente é um estudioso de teosofia e das tradições místicas. 

Sobre os campos mórficos, afirmou que alguns aspectos desta hipótese lembram elementos de vários sistemas ocultos e tradicionais, como o conceito de corpo etérico, a idéia das almas-grupo de espécies animais, e a doutrina dos registros akáshicos. No entanto, esta hipótese é levantada em termos estritamente científicos, e como tal terá que ser julgada por testes empíricos”. (SHELDRAKE1982,p.360, apud AVELINE, 1999, p. 120)

Qual a relação da pesquisa de Ruppert Sheldrake com o que se estuda e vivência na Antigos Caminhos? Um dos motivos que me levou a fazer essa comparação foi a eficácia atribuída pelo autor às práticas focadas na atenção e intenção, o que percebi presentes nas práticas da Antigos Caminhos. Como, por exemplo, nos desejos de saúde, amor, prosperidade e realização de projetos, impregnados nas fitas coloridas trançadas no mastro, no Festival de Beltane. Ou nas intenções imantadas nas sementes, plantadas em seguida, durante o Festival de Ostara. Como as sementes brotarão na terra, assim também nossos desejos se cumprirão. 

Mirella Faur, na obra O Legado da Deusa, afirma que os rituais devem ser feitos “com atenção e intenção, repetindo-os de maneira idêntica para reforçar o direcionamento do poder magico” (2003, p. 72). Em sua palestra no Primeiro Encontro de Neo-Paganismo do Ceará fez uma alusão a Jean Shinoda Bolen: “quando existirem mil círculos femininos funcionando, haverá um salto de consciência na humanidade”. 

Bolen havia dito em O milionésimo Círculo: “e se o milionésimo macaco for um dos círculos femininos que colocará a humanidade na era pós-patriarcal”?  (2005, p. 243). Sua intuição está baseada na hipótese dos campos morfogenéticos e ressonância mórfica de Sheldrake. Quando trata dos campos mentais humanos, essa hipótese afirma: se um número ideal de pessoas muda a forma de pensar e de se comportar, a cultura também muda. 

Este é o Princípio do Centésimo Macaco, ilustrado por Sheldrake através da história de um novo comportamento adquirido por um grupo de macacos e transmitido a outros grupos, distantes geograficamente, mas pertencentes à mesma espécie. (O centésimo macaco, 1981). O princípio defendido por Sheldrake, conforme Bolen traz-nos uma esperança: o que era inimaginável é feito inicialmente por alguns, depois por muitos, até que um certo número de pessoas entra na mesma sintonia, e acontece a mudança. Tem início, então, um novo padrão, uma nova forma de ser e de agir. Como surgiu esta teoria?

Na década de vinte, vários embriologistas e biólogos desenvolvimentistas, ampliaram o conceito de campos morfogenéticos, limitado ao estudo do crescimento das plantas e dos animais, mas assemelhados aos campos eletromagnéticos e gravitacionais conhecidos pela física.  Entre eles estava Sheldrake. 

Os campos  morfogenéticos  contém atratores que atraem os sistemas sujeitos à sua influência na direção dos objetivos que devem realizar no futuro. (...) Têm a sua história e contém uma memória intrínseca. (...) Através da ressonância mórfica, cada indivíduo de uma mesma espécie faz uso da memória coletiva da espécie e contribui para essa mesma memória  (SHELDRAKE, 2003, p. 296).

Dizendo de outro modo, a qualidade vibratória e informacional desse campo atrai para si consciências semelhantes. É esse campo que atrai as pessoas a certos grupos. Essa qualidade compreende laços de afinidade em toda a natureza, inclusive entre grupos de animais – como bandos de pássaros, cães, gatos, peixes – entre pessoas e animais, e entre pessoas. A ressonância mórfica une os integrantes de um grupo, é responsável pela interação da espécie, a influência do igual sobre o igual  através do tempo e do espaço” (SHELDRAKE, 1995,p.74).

Sheldrake ampliou radicalmente o conceito de campo morfogenético, compreendido por muitos biólogos nos termos da física e da química convencionais, entendendo-o como campo mórfico (1995, p. 74),  “um novo tipo de campo que vem se somar aos campos gravitacional, elétrico, magnético e quântico ” (SHELDRAKE, 2003, p. 29). 

O campo mórfico  tem forma energética e informacional. Essa forma colabora

para a coordenação dos movimentos e atividades dos animais individuais, quer sejam cupins ao construir seu ninho, peixes ao nadar em cardumes, pássaros ao voar em bandos, manadas de herbívoros ao fugir de um perigo, lobos em expedições de caça, seres humanos em multidão, times de futebol ou grupos familiares. Os campos sociais ligam entre si todos os membros do grupo e permitem que entre eles se estabeleçam formas de comunicação superiores às dos sentidos comuns. (SHELDRAKE, 2003, p. 137 )

O campo que une os animais entre si dilata-se

Como uma espécie de fio invisível que liga os indivíduos separados ao restante do grupo e pode funcionar como um canal de comunicação entre eles. Qualquer mudança ou diferença ocorrida num dos organismos ligados por um campo assim dilatado pode, através do mesmo campo, afetar outro organismo ligado ao campo (SHELDRAKE, 2003, p. 137).

Com base nessa hipótese, alguém que pertence a um grupo esotérico pode lembrar que sua conduta afeta os outros membros, para o melhor ou o pior.

Os campos mentais  (Sheldrake,1995, p. 297), fazem parte dos campos mórficos. São campos comportamentais que determinam os instintos e comportamentos dos animais. Estes campos relacionam-se com o sistema nervoso e o cérebro, impondo padrões ordenados aos processos que ocorrem dentro deles. Estão por trás de nossas percepções, pensamentos e demais processos mentais. Ajudam a explicar a telepatia, a clarividência e também colaboram para nossa compreensão das premonições, através da ideia de intenções que se projetam para o futuro.

É uma hipótese científica já corroborada por um grande número de indícios fornecidos tanto pela experiência espontânea das pessoas quanto por experimentos controlados” (2003, p. 28). Enquanto biólogo, Sheldrake afirma que “os fenômenos psíquicos estão arraigados em nossa natureza biológica e procedem de campos fundamentais para todos os organismos vivos – os campos mórficos”.(2003, p. 292). Através dos campos mórficos mentais, “a mente expandida se projeta no ambiente por meio da atenção e da intenção e se liga a outros membros dos grupos sociais”. 

O neurocientista Walter Freeman (apud Sheldrake, 2003, p. 298), da Universidade da Califórnia, que passou muitos anos investigando esses padrões de atividade, afirma que a atividade cerebral é modificada pelos significados e intenções. Certas escolas de artes marciais também acreditam que existe uma relação íntima entre as intenções e o desenvolvimento da energia vital. Nesse caso, a vontade é comparável a uma antena mental que se projeta para fora e explora o terreno, como se exercitasse na imaginação o que realizaria na ação. (2003, p. 164)

A atividade mental, embora tenha raiz no cérebro, através da mente expandida vai muito além do cérebro. Sheldrake faz uma analogia dessa atividade com o funcionamento do celular: sua transmissão origina-se na atividade elétrica dos circuitos e componentes elétricos, mas viaja em campos eletromagnéticos que vão além da estrutura material elétrica do celular  (SHELDRAKE, 2003, p. 298).

Para pensar sobre a mente expandida, Sheldrake criou uma metáfora biológica: a imagem de uma ameba unicelular, cuja forma típica nos livros didáticos de biologia – amoeba Protus - toma o nome de Proteus o deus do mar capaz de assumir muitas formas.  (2003, p 281).  Para se alimentar, a Amoeba Protus envolve e engloba o alimento, para se movimentar, ela lança projeções de seu corpo – os pseudópodos  (falsos pés ) no ambiente que a rodeia. Estes “pés” podem se movimentar em qualquer direção. Alguns se retraem, enquanto outros se ampliam em direção diferente.

A partir do conceito de mente expandida e através do uso de uma metáfora biológica, os órgãos sensoriais do sétimo sentido podem ser compreendidos “como pseudópodos da mente que se projetam para o mundo externo (2003, p. 288). Segundo esta metáfora, a atenção e a intenção funcionam como peseudópodos  que ligam as pessoas umas as outras através dos campos sociais (2003, p. 283). Disso pode resultar a clarividência ou visão à distância.

Exemplo das  células amebóides são as células nervosas. Algumas delas tem projeções alongadíssimas semelhantes a pseudópodos: os axônios, fibras nervosas que conduzem os impulsos nervosos. Alguns axônios constituem redes de interligação com outras células nervosas, enquanto outros vão do cérebro ou da medula até os órgãos dos sentidos e outros ainda contatam os músculos e glândulas cuja atividade podem desencadear.

A mente – diz Sheldrake – “tem por raiz toda uma rede de células nervosas com axônios semelhantes a pseudópodos que se estendem para bem  longe do corpo principal da célula” e projeta “pseudópodos mentais para o mundo que rodeia o corpo e forma redes de interligações com outras mentes” (2003, p. 282). Estes pseudópodos mentais, através da combinação da atenção e da intenção, “podem chegar a lugares e objetos distantes e fazer contato com eles, mesmo que estejam fora do alcance dos sentidos. 

Nossas intenções se estendem para além do cérebro e se dirigem para pessoas, coisas e lugares do mundo exterior, de acordo com nossas necessidades, apetites, desejos, amores, ódios, deveres, ambições e, às vezes, ideais.” (2003, p.281). 

O conceito de ressonância mórfica, nascido na biologia, pode ser experimentado na educação e na psicologia. Na educação, a transmissão dos conteúdos mentais vem sendo testada na Rose School, uma escola experimental de Nova York, dirigida pelo matemático e filósofo Ralph Abraham  (Co-autor, junto com Sheldrake e Terence Mc Kenna, da obra Caos,Criatividade e o Retorno do Sagrado: triálogos na fronteira do ocidente. São Paulo:Pensamento, 1994). Se essa possibilidade for provada experimentalmente, de maneira imperceptível de pessoa a pessoa, grandes progressos serão obtidos na área de educação, pois é mais fácil aprender o que já foi aprendido por outros. (SHELDRAKE. In ARANTES, 2002).

Na psicologia, teorias que sublinham a coletividade e as dimensões transpessoais são reforçadas através da ressonância mórfica. Há algumas semelhanças entre esta hipótese e as idéias de Carl Jung sobre o inconsciente coletivo e os arquétipos. (SHELDRAKE. In ARANTES, 2002).

Jean Shinoda Bolen, psicóloga junguiana, relaciona campos mórficos e arquétipos. Para ela, funcionam como se existissem fora do tempo e do espaço, “tornam-se imediatamente acessíveis quando nos alinhamos à sua forma e então se expressam em nossos pensamentos, sentimentos, sonhos e ações. (2003, p. 30). Aqueles que estão percorrendo os caminhos da iniciação numa tradição que recomenda o relacionamento com os arquétipos de deusas e deuses, sabem muito bem o que esta escritora quer dizer.

Pierre Weill (1993), psicólogo, fundador da Universidade Internacional da Paz, e Ken Wilber (1998), criador da Psicologia Integral, também acreditam na contribuição dos arquétipos - formas mitológicas do que ocorreu no mundo - e do inconsciente coletivo – maneiras de compreender a realidade presente em todas as pessoas – para justificar uma unidade de consciência na espécie humana.

Com base na hipótese do centésimo macaco e nas práticas esotéricas sobre o assunto, o que vocês acham das possibilidades dos campos mórficos mentais contribuírem para alicerçar as praticas na Arte, com a redescoberta das capacidades intuitivas humanas adormecidas, na observação das sensações decorrentes de nossas relações conosco, com os outros seres e o ambiente natural e cultural?  É possível que esta hipótese contribua para que os iniciantes na Arte tenham consciência da força energética que possuem a atenção e intenção dirigidas aos propósitos do grupo, assim como à importância dos integrantes de cada grupo estarem constantemente alimentando o fogo da união e lealdade entre os membros de sua  “família espiritual”? 

A esperança que essa hipótese nos dá é que, conforme a intensidade e qualidade dos hábitos desenvolvidos em nossos grupos, poderá ser criado um campo mórfico mental que, juntando-se aos esforços de outros grupos com objetivos afins, poderá fazer eclodir o princípio do centésimo macaco, o que nos conduzirá a uma era pós patriarcal. Um tempo em que Bruxas e Bruxos possam sair tranquilamente do armário.

Ramona Aine, Sacerdotisa do Clã de Arianrhod

 

Referências Bibliográficas

ARANTES, José Tadeu. Ressonância mórfica: a teoria do centésimo macaco. Disponível em http://www.galileu.globo.com. Acesso em 30.07.2013

AVELINE, Carlos Cardoso. A vida secreta da natureza: uma iniciação à Ecologia Profunda. Blumenau: Furb, 1999

BASSO, Theda. AMARAL, Moacir. Triângulos: estruturas de compreensão do ser humano. São Paulo: Editora do autor, 2007

BOLEN, Jean Shinoda. O milionésimo círculo. São Paulo: Triom, 2003

CABOT, Laurie. COWAN Tom. O Poder da Bruxa: a terra, a lua e o caminho mágico feminino. Tradução  de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Campus, 1992

FAUR, Mirella. O legado da deusa. Ritos de passagem para mulheres. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2003

.......................... Primeiro Encontro de Neo-Paganismo do Ceará. 3 a 5 de maio de 2013

SHELDRAKE, Ruppert. Sete experimentos que podem mudar o mundo. São Paulo: Cultrix, 1995.

..............................................A sensação de estar sendo observado. São Paulo: Cultrix, 2003

WEIL, Pierre. D´Ambrósio, Joaquim. CREMA, Roberto. Rumo a nova transdisciplinaridade: sistemas abertos de conhecimento. São Paulo: Summus, 1993