Get Adobe Flash player

Sagrado Masculino

sa.gra.do 

adj (part de sagrar) 1 Que recebeu a sagração; que se sagrou. 2 Relativo, inerente, pertencente, dedicado a Deus, a uma divindade ou a um desígnio religioso; 3 Que, pelas suas qualidades ou destino, merece respeito profundo e veneração absoluta; venerável. 

 mas.cu.li.no 

adj (lat masculinu) 1 Que pertence ou se refere ao sexo do varão ou dos animais machos. 2 Próprio de homem, varonil.

A Religião da Deusa se caracteriza pela aceitação das diferenças, pelo amor e respeito a todas as formas de vida (plantas, animais, mulheres e homens) e pela celebração dos aspectos feminino (criação, nutrição, fertilidade, beleza, paixão) e masculino (proteção, ímpeto criativo, respeito, vigor) da Divindade. A crença de que toda a criação surgiu a partir da união entre os opostos (feminino/masculino, yin/yang, luz/trevas) perpassa uma infinidade de culturas e mitos de criação e nos fornece excelente fonte para estudo e meditação. 

Na Wicca, essa dualidade da Divindade e, por assim dizer, a sacralidade dos opostos, se apresenta através da aceitação de que todas as mulheres são a imagem da Deusa (a própria Deusa) e que todos os homens são signos do Deus (o Deus Pagão, em suas múltiplas formas). Ao mesmo tempo, como a criação abrange dentro de si ambos os polos, há essência do Deus dentro das sacerdotisas e demais mulheres; e a presença da Deusa dentro de sacerdotes e homens. Contudo, não se pode negar que as essências masculina e feminina se expressam com maior força em homens e mulheres, respectivamente, pois, até inconscientemente, há o conhecimento dos mistérios sagrados, que nos aproximam das Deusas e Deuses.

No princípio dos tempos da humanidade, nossos antepassados não entendiam os incríveis acontecimentos e o mundo que os cercava. Como as mulheres (naquele tempo havia outro nome, ou não) sangravam, periodicamente, e não morriam? Como, as mesmas mulheres, gestavam a vida de novos membros do Clã ou tribo? Eram seres mágicos, sagrados, dotados de poderes ocultos e admiráveis. Provalvemente desses acontecimentos nasceram os Mistérios Femininos, quando as mulheres se isolavam nos momentos de menstruação e no parto, e compartilhavam a sacralidade e magia que perpassava seus corpos.

Em contrapartida, os homens eram responsáveis pela caça e proteção do grupo. A caça era uma atividade extremamente perigosa, dada a ferocidade dos animais e o parco conhecimento acerca de instrumentos (utilizavam então, provavelmente, lanças, facas e martelos), que exigiam a proximidade com a caça para a obtenção de êxito. Durante as caçadas, provavelmente surgiram o culto ao Deus de Chifres, senhor da caça e dos bosques, e os Mistérios Masculinos, ou sagrado masculino. Noções como força, audácia, vigor, proteção e, com destaque, honra, passaram a fazer parte dos aspectos do masculino. Havia, além disso, o respeito e a devoção às mulheres e à Deusa.

Posteriormente, com a "descoberta" da participação dos homens no processo de concepção, ao Deus foi agregada a imagem de Fertilizador. O Deus assumia, então, aspectos importantes para a prosperidade e saúde dos clãs e tribos. Ele era o protetor, guerreiro e caçador, que assumia todos os riscos possíveis em prol da sobrevivência do grupo; era, também, o amante, o companheiro, o amigo, que tornava doce os momentos de angústia e estava sempre ao lado das mulheres e crianças; era, ainda, após a velhice, o sábio e conselheiro, detentor de respeito por todos os jovens.

Com o advento do patriarcado, a face do Deus Guerreiro sobrepujou os diversos aspectos do Deus de Chifres e da Deusa Mãe, criadora de tudo. O culto à Deusa tornou-se proibido em diversas culturas e, em tantas outras, foi readaptado para ter menor importância e presença. Ao mesmo tempo, diversos aspectos do Deus foram ceifados, como o respeito a todas as formas de vida, a observância da sacralidade da mulher, a liberdade do guerreiro e caçador, e a alegria em celebrar a vida com música e amor. 

Apesar das proibições e violência, o Culto à Deusa não desapareceu por completo, tomando novas formas e realidades com o passar das eras, e o Deus de Chifres, em seus diversos aspectos, também sobreviveu. Não podemos afirmar que os cultos permaneceram tal qual eram realizados naqueles tempos e, no fundo, isso é o menos importante. O que devemos perceber é que, de uma forma ou de outra, diversos aspectos da Antiga Religião foram resgatados e são, atualmente, estudados, respeitados e recriados, através do aproveitamento de séculos de experiência e novos conhecimentos que os Deuses nos proporcionaram.

Entre essas atividades, podemos citar os Círculos de Mulheres e de Homens, que visam resgatar a sacralidade da Deusa e do Deus que habitam em cada um de nós. Em reuniões simples, que se baseiam na confiança e na entrega entre as/os participantes, os Círculos se apresentam como instrumento interessante para estudo e compreensão acerca de si mesmo e do mundo em que se está inserido. Não tenho, obviamente, informações aprofundadas sobre os Círculos de Mulheres e Mistérios Femininos, mas pelo feedback e alegria que recebo e vejo das participantes, acredito ser um trabalho iluminador.

Em relação ao Círculo de Homens e ao Sagrado Masculino, em contrapartida, possuo mais informações. Iniciamos na Antigos Caminhos (os sacerdotes Forseti Modig, Ogma Pã de Dannan e eu), há cerca de 2 anos, um trabalho voltado para o Sagrado Masculino, através de reuniões mensais do Círculo de Homens. Constituído por estudo e apresentação da mitologia de diversos Deuses, além de meditações e diálogo profundo acerca de temas atuais e que se relacionam com o fato de Ser Homem na sociedades Cearense e Brasileira, o Círculo de Homens conseguiu juntar um grupo focado e interessado em aprender e vivenviar o verdadeiro masculino no mundo que nos cerca. Juntaram-se ao grupo, para organizar os trabalhos, os sacerdotes Zéfiro Arthemus e Bodb Fuill Ddrag.

Viver a verdadeira expressão do Deus Chifres significa: respeitar as diferenças; excluir o machismo e a intolerância de nossos atos; aceitar, com alegria, que homens podem ser sensíveis, podem se emocionar com a beleza das cores da vida; que podem dizer, sem medo ou vergonha, Eu te Amo, para nossas/os companheiros, amigas/os, irmãs/ãos; e que o Masculino, o Ser Homem, não está relacionado à opção sexual do homem, pois ele é Homem e possui o conhecimento dos mistérios masculinos independemente se é hétero, homo, bi ou que quer que seja. O respeito e o amor devem dominar a noção do Ser Homem, pois o Deus Guerreiro é aquele que coloca a segurança e proteção dos que ama acima de tudo, até mesmo de seu conforto.

A Religião da Deusa, que é a Religião do Respeito, é também a religião do Deus de Chifres, o consorte, o fertilizador, o alegre e sensual Deus das florestas e dos animais, da coragem que habita em cada um que se entrega a Ele. Da união da Deusa e do Deus, da dança cósmica, fomos gerados e formados. Que possamos, a cada dia, adquirir o conhecimento que nos ajude a moldar a realidade e melhorar o mundo em que vivemos.

Fionn Druir, Sacerdote do Clã de Arianrhod