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Biodiversidade é um dos temas da moda atualmente. E faz sentido. A ação do homem se tornou um fator de extinção tão importante quanto as catástrofes das eras da terra.  Mas exatamente, o que é biodiversidade?
 
Esse conceito é ao mesmo tempo mais óbvio e mais abrangente do que parece. Biodiversidade é a variedade existente na natureza viva. Mas abrange também os seres vivos e suas interações entre si, a diversidade entre populações e a diversidade genética dentro de uma espécie.
 
E dentro das espécies existentes temos as espécies domesticadas também. Elas evoluíram de seu estado selvagem para o domesticado junto com a história do homem. E ao longo de milênios de seleção, foram desenvolvendo uma diversidade genética intra-específica enorme. O exemplo mais visível disso são os cães. A mesma espécie tem uma variedade gigantesca de formas, tamanhos, cores, temperamentos e doenças específicas. Mas as plantas cultivadas também têm essa diversidade, menos visível, é verdade, e é nela que vamos nos ater neste artigo.
 
Outro conceito que eu abordo de uma forma mais ampla aqui é a política. Política no sentido que estou usando é qualquer relação de seres humanos entre si, e deles com as instituições e das instituições entre si. Aqui eu vou falar da política voltada ao que comemos, ás plantas que evoluíram conosco.
 
As plantas que constituem a dieta dos povos possuem uma variedade gigantesca. Em 1940 haviam cerca de 10.000 variedades catalogadas de arroz na Índia. Imagine quantas então haveriam nas chamadas civilizações do arroz – as culturas asiáticas? Essa diversidade também está se extinguindo.
 
Existem tomates verdes, amarelos, roxos, vermelhos e rosa. Podem ter polpa firme, mole, aquosa, fina, espessa, granulosa, lisa. Podem ter poucas sementes, muitas sementes, sementes soltas, sementes aderidas ao fruto. Podem ser grandes, com cada fruto pesando quase um quilo, ou pequeninos. Podem ser ácidos, doces, sem graça, ardidos. Podem ser redondos, ovais, em formato de pêra, achatados. Podem ser solitários ou vir em cachos. O pé pode ser alto, baixo, tolerante a solos ácidos, resistente ou não a várias doenças e pragas. E essas características podem vir em qualquer combinação.
 
Arroz pode ser branco, marrom, vermelho ou preto. Pode ter um teor de amido alto ou baixo, na superfície do grão ou apenas internamente. Pode ter diferentes cheiros, e formatos de grão. Pode crescer no seco ou no alagado. Pode florir apenas em temperaturas frias, ou tolerar verões escaldantes. Pode ser alto, acima da cabeça de um homem, ou baixinho. Pode produzir muitas folhas ou poucas folhas. Pode ter a espiga cheia ou mais solta.
 
Milho. Tem milho branco, milho amarelo, milho roxo, milho vermelho, milho alaranjado. Tem milho de grão pontudo, milho de grão redondo, milho de grão quadrado, milho doce, milho de pipoca, milho duro, milho macio, milho da seca, milho das chuva. E por assim vai, com a batata, com o trigo, com as maças…
 
Mas nem todas as variedades se prestam para cultivo em larga escala. O arroz de sequeiro e de talos curtos por exemplo, se tornou o mais cultivado no Brasil. Não necessariamente porque é o mais produtivo, ou o mais nutritivo, mas porque é o mais fácil de ser colhido em colheitadeira. Que produtos são cultivados hoje dependem mais da facilidade de serem industrializados, da vida de prateleira dos mesmos, de serem tolerantes ou não a determinados adubos ou agrotóxicos e do interesse da grande empresa que vende as sementes (caso você não saiba, 6 empresas controlam 80% do mercado mundial de sementes), do que do valor nutritivo deles. É uma decisão economia e política.
 
E onde entra o quintal da vovó? Os quintais são a fortaleza dessa imensa variedade de plantas agrícolas. E de temperos, e das plantas medicinais. São o repositório de uma ininterrupta tradição agrícola, cultural, alimentar e afetiva da humanidade.
 
Em minha própria família tenho muitas dessas lembranças. Das frutas que você só acha no pé, do quintal da vovó. Do abiu, da jaca mole, da pitanga e da jabuticaba do quintal da minha avó. Da lingüiça temperada com folha de figo, pimenta de macaco e alfavacão. Do xarope de elevante, capim limão, flor de mamão macho e raiz de salsa quando eu gripava. De brincar nesse quintal, na aparente desordem das plantas, as flores entre as ervas, entre a comida.
 
Então fica aqui meu manifesto pelos quintais. Por tudo que eles preservam. E eles podem salvar a humanidade um dia. Exagero? Não. A fome das batatas na Irlanda foi causada por um fungo, míldio, que transformava as batatas em líquido negro. Também foi causada pela baixa diversidade genética, que permitiu com que todas as batatas cultivadas lá fossem susceptíveis a esse fungo. A diversidade genética é a base para a sobrevivência das espécies.  Neste tempo em que vivemos, o milho que suportará as mudanças climáticas pode perfeitamente estar num fundo de quintal qualquer por ai.