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Acordei, olhei-me no espelho e disse alto: meio século!
Quem é essa mulher que a alvura da morte espreita?
Os raros fios de cabelo brancos, dão agora lugar à espessas madeixas que já não deixam duvidas: são claros os sinais de mais uma passagem, a última antes daquela que a Ceifadeira preside.
Menopausa!!!!
Um fim e um começo, como tantos outros já vividos.
Meio século!!!
Porque será que não me assusto?
Porque esta passagem me é tão suave?
Mudança do corpo físico, hormônios descontrolados, as marcas da passagem do tempo, tudo isso ja vivi antes.
Menina, vi meu corpo arredondar-se, atraindo olhares insinuantes, sangrei pela primeira vez, senti cheiros e fluidos corporais intensos.
Mulher, vivi meu corpo gerar nova vida, meus peitos derramarem alimento e saciar a fome e sede de meus filhos, a barriga que ora se enchia ora esvaziava-se.
Mas agora, nova fase se apresenta, meus seios que murcham perderam o sabor, minhas formas arredondadas já não mais atraem olhares, meu olhar avista a distante infância com saudade.
Sou mulher de todas as fases, que viveu cada uma delas intensamente e que guardou de forma inescusável todas as vidas que viveu.
Sou a tranqüila mulher dos cinqüenta, aquela que viu o mundo modificar-se, a quem coube a missão de conduzir a transformação.
Vivi revoluções, internas, externas, políticas, sociais, em todo o planeta.
Quando nasci, em 1956, menos de 30 por cento das mulheres ousavam estudar, e quando o faziam, deitavam sobre as artes do ensinar, ensejando assim o alicerce da nova era. Usar calça comprida? Era assim que se dizia, só mesmo a moça mais atrevida.
Os cabelos? Mulheres usavam presos, sob chapéus elegantes, saiam à rua acompanhada dos maridos, de salto alto e luvas (irrepreensível).
Vi a mulher crescer, assumir seu papel na sociedade que, mesmo que sob o julgo do patriarcado, cedeu lugar a idéias e a esta nova força que resplandece: a mulher moderna!
Não foi fácil, não foi difícil, deixei-me influenciar pelos novos ares, assumi-me assumindo meu destino.
Meio século!!!!!
Olho-me no espelho, como será agora?
Tenho um novo papel a assumir: a anciã.
Fisicamente ainda estou em transformação (que culminará com a absoluta decrepidez), mas meu self conhece bem o doce aroma do inusitado que certamente tomará a mim.
Ocupar o lugar daquela que até outro dia vi e reconheci sábia, que antes ocupou minha avó, hoje ocupa minha mãe; olhar para trás e ver meus filhos gerarem filhos.
Avó!!!
Ser avó não diz respeito apenas à relação de parentesco, ser avó é ser anciã, num clã e numa sociedade que precisa dela, fazendo a roda girar para que uma nova roda se apresente.
Olho-me no espelho..... porque será que não me assusto?
 
Sou aquela que olhou
e te viu nascer.
Sou aquela que te
viu crescer.
Sou a filha, sou mãe
sou avó.
O auge é também
o declínio.
Sou tudo o que sou
Sou aquela que te criou.
 
Arian Badb Sophia.
18/04/2007