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Texto da Brianna Faraash

Os termos Wicca e Bruxaria têm ganhado destaque na mídia desde o lançamento do livro “Bruxaria hoje”, do inglês Gerald Gardner, em 1954. Na obra, Gardner tratou abertamente sobre a bruxaria, abordando crenças, práticas e rituais relacionados à religião da Deusa.

Uma consideração importante é que a década de 1950, na qual Gardner lançou sua obra, foi especialmente importante para as religiões pagãs. Os Anos Dourados, como a década é chamada, é considerada uma época mágica e de transição, onde o período de guerras (Guerra da Coréia, Guerra Fria, Guerra do Vietnã) e o período de revoluções comportamentais e tecnológicas coexistiram, reformatando muitas das verdades consideradas fundamentais até então. O crescente movimento da Nova Era, na década de 60, com suas crenças espiritualistas que apresentavam um novo modelo de consciência moral, psicológica e social, agregando a integração da Natureza e do Cosmos, permitiram que a Wicca crescesse entre os jovens. A década de 70 também foi muito importante para a propagação da religião da Deusa em vários pontos do planeta, trazendo muitos adeptos da cultura hippie, que pregava a liberdade, o respeito, a paz e o amor para as religiões pagãs.

Na mídia, a Wicca continuou a crescer, apesar do sensacionalismo e das opiniões negativas publicadas pelos tablóides, com novas tradições propagadas por figuras como Robert Cochrane, Sybil Leek e Alex Sanders, sendo este último o criador da Tradição Alexandrina.  Nesta época, o termo "Wicca" começou a ser adotado ao lado de "Bruxaria" e suas crenças e tradições foram exportadas para países como Austrália e Estados Unidos.

Ao mesmo tempo em que a religião da Deusa ganhou espaço para a divulgação e propagação dos seus dogmas, a exposição na mídia também acarretou na difusão de muitos preconceitos expostos pelos meios de comunicação e de entretenimento de massa. As telonas foram recheadas de personagens sombrios e caricatos como a bruxa Elvira, A Rainha das Trevas, lançada em 1988. Outros filmes também ganharam destaque empregando os termos “bruxas” e “bruxaria”, como o clássico “O Mágico de OZ” , as Jovens Bruxas, a Bruxa de Blair, e a Bruxa Má, da Branca de Neve e dos tantos outros contos infantis. Os símbolos pagãos também se tornaram parte do arsenal de construção dos personagens de terror nos filmes Hollywoodianos, perpetuando a idéia medieval cristã dos pagãos como seres portadores do mal absoluto.

Na mídia espetáculo isso é constatado na perpetuação errônea associada à imagem das bruxas no noticiário. Como exemplo recente desse tratamento houve o caso da enfermeira de Goiás, acusada de maus tratos após imagens divulgadas na internet em que ela aparece espancando um yorkshire, e que foi constantemente intitulada como bruxa por algumas mídias, leitores e usuários das redes sociais. Outro caso também recente do emprego do termo Bruxa com conotação negativa no país foi a capa de revista Veja de maio de 2010, com o Título “A bruxa confessou”, referindo-se ao caso da procuradora Vera Lúcia, acusada de torturar uma menina que pretendia adotar.

Não que a mídia seja responsável por toda a onda de preconceito que as religiões não convencionais, como as pagãs, são alvo, mas é indiscutível que elas têm papel fundamental na sociedade como agentes que retratam a história social e política de cada época, assim como a formação de opiniões e expansão de informações sobre as mesmas.

Com o advento das tecnologias digitais, onde todos podem emitir e receber informações de qualquer lugar do planeta, a questão das religiões tem sido colocada em outro grau de importância. As informações e o conhecimento se tornaram mais acessíveis, fornecendo também a desmistificação de várias religiões, como a bruxaria.

Por muitas décadas, as mídias tiveram papel importante para aproximar as pessoas das religiões dominantes de cada sociedade, contudo, o que mudou nos últimos anos é que as pessoas agora também podem experimentar a religião e a espiritualidade através das mídias. O ciberespaço e as mídias digitais convidam à participação e à interação dos indivíduos, em outro patamar que vai além da simples recepção das idéias. Os indivíduos agora podem partir em busca de conhecimento e reconhecimento da sua crença, lutando pelo direito de exercer sua fé através do ciberespaço.

Essa nova consciência pode ser vista nas manifestações de órgãos criados com o objetivo de esclarecer sobre as religiões pagãs e defender os adeptos de acusações e superstições populares, buscando legitimar também a religião para o Estado, objetivando o direito de crer nos Deuses antigos e viver em paz.

Brianna Faraash é jornalista e sacerdotisa wiccana