Get Adobe Flash player

Comumente escutamos no caminho da bruxaria a expressão “Ouvir o chamado”, e constantemente os autores abordam a questão de que no caminho da arte os sacerdotes não costumam catar os “fiéis” e que os mesmos só procuram o caminho da Deusa no momento em que escutam “o chamado”. Algumas pessoas caracterizam o chamado pelo momento no qual seus olhos se abriram pela primeira vez para um outro mundo, que de alguma forma, fez com que experimentassem a sensação de voltar para casa. Essa experiência é sempre algo muito pessoal, não existe fórmula secreta para acontecer ou fatos pré-estabelecidos. O chamado da Deusa pode acontecer através da descoberta de um livro, de sonhos (e memórias) distantes, pelo não enquadramento nas religiões convencionais, pelo desejo de conhecer outros mundos, pela busca de algo que a gente sente que falta, mas que não sabe explicar exatamente o que isso possa ser.

Todos os que seguem o caminho da Deusa já sentiram o chamado em determinado momento da sua vida e passaram pelo momento da escolha: ir adiante ou não?? Conhecer ou ignorar? Os que se dizem filhos da Deusa escolheram jogar-se no abismo desconhecido, optaram por continuar trilhando o caminho da grande mãe. Três fases são comuns nos que aceitam o desafio: o medo de não ser capaz; a assustadora comprovação de que se pode moldar a realidade; e, em determinado momento, a sensação de responsabilidade que isso acarreta.

Isso pode assustar bastante. Praticamente todas as pessoas que conheci no caminho tiveram momentos nos quais a dúvida e/ou medo foram tão grandes que acarretaram no afastamento do caminho da Deusa. Alguns passaram por isso no começo do caminho, outros durante a dedicação, no que se chama de noite escura da alma, e alguns após a iniciação, quando a responsabilidade triplica. Esses momentos de angústia, de fuga e de silêncio fazem parte do caminho de quase todos os seguidores da arte, e geralmente tem prazo de validade para passar. Um dia eles acordam sentindo um vazio no peito, e o vento soprando no rosto trás os sussurros de um caminho antigo, esse é o dia que a Deusa volta para a sua vida. Esse é o dia do renascimento.

A Deusa então, mãe que é, coloca sua mão e conduz a vida dos seus filhos na linha do conhecimento. Ela colocará livros, situações, vivências e as pessoas certas no caminho, mesmo que você não entenda o motivo.

É preciso que se tenha em mente que o caminho da Deusa não é para todos, e os mistérios só são revelados para os que realmente viverem a Deusa. O caminho não é só de flores (embora as tenha sim, e muitas). É um caminho de serviço, de entrega. Algumas vezes você vai preferir dormir até mais tarde, mas vai ter que acordar assim que o sol nascer. Algumas vezes você adoraria ir para a cama mais cedo, mas vai ter que meditar e/ou fazer rituais porque a Deusa assim está pedindo. Ter fé é se deixar ser guiado por Ela, é ter ouvidos abertos para o que a Deusa tem a dizer, seja por meio de contato direto, intervenções, sonhos ou através das pessoas que Ela coloca no seu caminho.  Nada é por acaso. Mais do que falar, é preciso saber ouvir.

Falando um pouco de sacerdócio, o que vejo muito no caminho da bruxaria são pessoas que se preocupam apenas com a questão da iniciação, como se isso fosse o objetivo maior do caminho. A iniciação com certeza é uma etapa importante para os que desejam seguir o sacerdócio, mas, mais do que o “fim”, é preciso que se saiba que o essencial é o “meio”, o caminho que se trilha. O cotidiano é quem faz os verdadeiros sacerdotes, a vivência nos preceitos da arte, o amor e devoção pela Deusa e pelo Deus, a eterna busca pelo conhecimento, e a humildade de saber reconhecer que você é apenas uma ferramenta dos Deuses na terra. A pessoa sentir a Deusa pode até torná-lo um bruxo, mas somente o ato de respirar a arte é que, de fato, faz com que a pessoa se transforme em um verdadeiro sacerdote dos Deuses antigos. E a razão é sempre a forja. A Deusa forja seus filhos. Ela precisa que eles sejam sábios, inteiros, justos, amorosos e fortes para reaver os mistérios e trazer de volta o antigo caminho da beleza para a terra.

A palavra chave do caminho do sacerdócio é serviço. É seguir muitas vezes a voz Dela sem saber o porquê, é mergulhar no desconhecido porque tem a certeza que a Deusa sabe exatamente tudo o que faz. É um caminho de fé, no qual é preciso ter cada dia mais certeza de que nada, absolutamente nada acontece em vão. Ser sacerdote e sacerdotisa é uma escolha diária de entrega e amor na senhora e seu consorte. É um mundo de abandonos e escolhas às vezes difíceis, mas também é um mundo de alegrias e prazeres inexplicáveis, de belezas únicas, de viagens inesquecíveis por outras realidades. É mergulhar em cada aprendizado e vivência conduzida por Ela, e ter cada dia mais certeza de que a Deusa jamais abandona seus filhos.

Brianna Faraash