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OS ANCESTRAIS NO DRUIDISMO

por Renata Gueiros

Como em muitas religiões, no Druidismo também há uma enorme importância no reconhecimento e celebração dos ancestrais. Mas, o que e quem são os ancestrais?

Pela definição do dicionário, ancestral: que diz respeito aos antepassados; antigo, primitivo. Antepassados, avós, antigos. Portanto, ancestrais são aqueles que vieram, viveram e caminharam nesta terra antes de nós, e por fim tornaram-se eles próprios parte da mesma terra após suas mortes, mas não sem nos deixar vários legados – culturais, de tradições e costumes, físicos, e espirituais.

Os ancestrais podem ser seus avós, bisavós e outros familiares mais antigos da sua família de sangue, já falecidos; pode ser um patriarca ou matriarca que tenha fundado uma vila familiar que viria a se tornar a cidade na qual você vive; podem ser os indígenas há muito tempo esquecidos, ou ainda aqueles que vieram antes, e deixaram as impressões de suas vidas desenhadas na pedra. Ancestrais são aqueles com os quais temos algum tipo de conexão, seja de sangue ou de alma. São os sábios, os iluminados, os que vivem no OutroMundo. Eles são a memória da tribo.

Ancestrais no Druidismo

No druidismo há um enorme respeito pela ancestralidade e por tudo o que ela representa. Nos ritos, nas lendas, os ancestrais estão sempre presentes, sendo honrados com oferendas, citados em seus feitos heroicos ou mencionados através das suas linhagens.

Para um druidista, os ancestrais honrados e celebrados são os de sangue (familiares), da terra (os que aqui viveram antes de nós, os nativos do lugar), e os de alma (neste caso específico, os celtas). Em todos os ritos druídicos existe um momento no qual eles são convidados, celebrados e recebem suas oferendas, prestando dessa forma todo o respeito e honra aos antigos. Obviamente, o melhor período para fazer isso é na celebração do Samhain, mas não somente nessa época eles são lembrados, como já foi dito acima.

Entre as oferendas, pães ou bolos, cerveja ou vinho, arte em geral (músicas, poemas, artesanato) são boas escolhas. No caso de familiares que se conheça o gosto pessoal, a comida ou bebida favorita pode ser ofertada, normalmente no chão, numa pequena cova cavada para esse fim ou num espaço reservado para eles no altar ou mesa.

Famílias celtas e o conceito de adoção.

Quando se fala de ancestralidade entre os celtas, não podemos considerar “de sangue” apenas as famílias biológicas, uma vez que entre eles haviam outros laços ligando-os.

“Em princípio, os filhos pertenciam à família do pai, e estavam, assim, protegidos de qualquer injustiça, pois a solidariedade familiar intervinha em favor deles, que não eram nunca abandonados. Havia ainda uma instituição especial para crianças que estivessem neste caso: adoção, que consistia em mandar os filhos para receberem educação manual, doméstica, intelectual ou guerreira com outra família, que por sua vez criava laços entre a criança e seus pais adotivos, alargando consideravelmente o quadro da vida familiar.”

(Markale, Jean - As Três Faces da Mulher Celta)

“A unidade básica da vida celta era o clã, uma espécie de extensão da família. O termo família é um pouco mal compreendido, porque em todos os relatos os celtas praticavam uma forma peculiar de educação dos filhos; eles não os criavam, eles os ‘cultivavam’. As crianças eram na verdade criadas por pais adotivos. Muitas vezes o pai adotivo era o irmão da mãe biológica. Os clãs estavam espontaneamente unidos com outros clãs nas tribos, cada uma tinha sua própria estrutura social e costumes, e possivelmente seus próprios deuses locais.”

(Ross, David – Celtic Britain)

Como se pode ver nestes dois trechos, a adoção não só era estimulada como era a cola que mantinha os clãs unidos. No caso dos druidas, é sabido (através de historiadores como Júlio César, em seu De Bello Gallico) que os filhos de reis e outros membros da aristocracia mandavam seus filhos para estudarem com aqueles que eram reconhecidamente os mais sábios entre os povos celtas, que então assumiam as responsabilidades e direitos de um pai adotivo, apesar de serem os pais biológicos quem mandassem as provisões para o sustento dos filhos até que o treinamento estivesse completo. Nas lendas irlandesas, temos o druida Cathbad, da corte de Conchobar MacNessa; e “Tírechán (bispo irlandês do séc. VII), conta que Eithne e Fedelm, duas filhas do rei Lóegaire mac Néill convertidas por Pádraic, eram adotadas e educadas por dois druidas de nomes Mael e Caplait” (Isarnos, Bellouesus, em – Daltae).

Ancestrais ilustres e/ou divinos

Uma atitude muito comum na Idade Média foi a das famílias da aristocracia tomarem para si um ancestral divino ou um personagem das lendas do Mabinogion ou dos livros irlandeses, para ‘comprovarem’ sua importância.

“Certas famílias queriam ser associadas com um herói em particular, que então tinha que ser encaixado em suas genealogias; certos distritos queriam ser o lugar de um importante antecedente mitológico, e daí por diante. Tudo isso necessitava da composição de novas histórias (provavelmente baseadas nas velhas).”

(Kondratiev, Alexei – Lorekeepers Course 1.0 - Literatura Céltica Medieval)

...“Por exemplo, os ilhéus de Tory possuem uma visão única de Balor, o avô do deus Lugh, a qual contrasta com as histórias muito arcaicas sobre Lugh e Balor encontradas na Donegal continental. Enquanto em outros lugares Balor é uma figura ameaçadora que deve ser conquistada por Lugh, o povo da Ilha de Tory tem uma história de Balor sendo seu ancestral. Antes de aceitarmos isso como uma tradição popular alternativa, devemos dar uma olhada de perto em sua provável origem. As fontes literárias — que consideram todas essas figuras como seres humanos comuns — nomearam a lha de Tory como a fortaleza de Balor. Embora o pano de fundo ritual para a história torne claro que Balor era originalmente um ser mitológico, e que a Ilha de Tory (como outras ilhas na tradição céltica) era associada com ele porque seu isolamento a fazia um local do Outromundo; nos séculos posteriores mais ênfase foi colocada (especialmente pelas elites literárias) nas histórias como históricas em vez de documentos mitológicos, e houve mais incentivo para conceber Balor como um humano historicamente conectado com a ilha e seu povo, provendo-os com uma nova e prestigiosa linhagem. Levando isso em conta, torna-se menos provável que a tradição dos ilhéus de Tory seja antiga: parece muito mais possível que ela seja um enxerto relativamente recente das fontes literárias.”

(Kondratiev, Alexei – Lorekeepers Course 1.0 - Tradição Popular Celta)

O que aconteceu com a chegada do Cristianismo na Europa foi um enorme problema de adaptação à nova cosmologia e hierarquia divina, já que todos deveriam responder apenas a um deus supremo. Portanto, todos deveriam descender de sua primeira criatura: Adão.

A solução então era bastante óbvia. Os velhos deuses tinham de ter sido humanos, homens e mulheres famosos e grandes guerreiros que vieram a ser louvados como deuses. E, se eles eram humanos, eles deviam ser descendentes de Adão e Eva como qualquer um.

Uma das primeiras tentativas remanescentes de criar esse tipo de genealogia é a Historia Brittonum do monge galês Nennius (século IX), que registrou uma genealogia vinda de Noé até Alanus, que segundo o monge teria sido o primeiro homem a viver na Europa. Alanus teria sido pai de quatro filhos que teriam dado origem aos franceses, romanos, germânicos e britânicos. Uma história muito doida, não é mesmo?

Seguiram o mesmo padrão:

Irlanda, que usou de fontes como o Lebor Gabála Érenn e os Anais dos Quatro Mestres para compilar uma genealogia histórica do país, no qual os reis irlandeses descendem de Adão. Seguindo a linha não cristã, os atuais irlandeses seriam “Mac Míled” - descendentes de Érimón mac Míl Espáine, que trouxe seu povo - os milesianos – para a Irlanda por volta de 500 a.e.c., conquistando-a da raça anterior, Tuatha Dé Danann. A história pode ter algum fundamento, mas não pode ser totalmente comprovada.

As primeiras famílias reais de Gales, que afirmavam serem parentes da família de Jesus, como no caso do “casamento” entre Ana (prima de Jesus) e Beli Mawr, que é citado nos registros do Mabinogion e nas genealogias galesas como sendo o pai de Caswallon (ou Cassivellaunus) – líder das tribos célticas que repeliram as invasões de César em 55 e 54 a.e.c. Outras famílias afirmavam descender de Bran, o Abençoado (que aparece no Primeiro Ramo do Mabinogion) e de seu pai, Llŷr Llediath.

Entre os escoceses existe a lendária Scota, de quem os escoceses adquiriram o nome. Scota teria sido filha de um faraó egípcio (Cingeris ou Nactabaeus), contemporânea de Moisés e do período do Êxodo. Tal “fato” é apontado somente nas fontes da Irlanda medieval, não nas fontes egípcias. Ela ainda teria sido esposa de Míl Espáine ou ainda do pai dele.

Pequena invocação para os ancestrais

Trecho de um rito druídico da ADF

(A Druid Fellowship ou Ár nDraíocht Féin)

- "Famílias! Um filho da terra chama por vocês! Eu chamo pelos Antepassados, aqueles que foram antes, os espíritos dos Mortos Poderosos para unirem-se a mim aqui. Vocês, que já estiveram onde estou, passaram para o além, e agora guardam os segredos da vida e da morte. Ancestrais de sangue e espírito, chamo por vocês. Ancestrais, aceitem minha oferenda!"

Neste caso, é acesa uma vela para os antepassados enquanto se fala e termina de fazer a oferenda.

Celebrar os ancestrais é celebrar uma parte de nós, e deve ser feito sempre com respeito e devoção.

Referências:

Markale, Jean - As Três Faces da Mulher Celta:http://unesdoc.unesco.org/images/0007/000748/074849eo.pdf

Cathbad mac Rossa, verbete: http://www.maryjones.us/jce/conchobar.html

Ross, David – Celtic Britain: http://www.britainexpress.com/History/Celtic_Britain.htm

Kondratiev, Alexei – Lorekeepers Course 1.0: http://lorekeeperstraduzido.wordpress.com/

Isarnos, Bellouesus – Daltae: http://bellodunon.wordpress.com/2013/04/01/dalta-aluno-discipulo/

ADF: http://www.adf.org/core/

Traduções: Renata Gueiros.