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Todos os Deuses do Céu e da Terra

Devem ser chamados de divindades benfazejas,

Pois todas essas deidades benévolas

Protegem os praticantes do Nembutsu.

SHINRAN (1173-1262) – Hinos da Terra Pura

Sobre o Autor:

O paulistano Ricardo Mário Gonçalves (69) é professor aposentado do departamento de História da Universidade de São Paulo onde lecionou, entre outras matérias, História Antiga e História das Religiões. É também missionário de uma Ordem Budista japonesa, a Verdadeira Escola da Terra Pura (Jodo Shinshû). É ainda um profundo estudioso das religiões da Antiguidade, especialmente as da Grécia, Roma e Egito, pelas quais nutre um profundo apreço.

Principio com alguns relatos de reminiscências pessoais. Desde tenra infância, sou fascinado pelas religiões e mitologias antigas, tendo sido iniciado na Mitologia Grega pela leitura dos livros de Monteiro Lobato. Nunca senti qualquer atração pelo Cristianismo e, às vezes, enquanto lia Monteiro Lobato, erguia no fundo do quintal pequenos altares a Zeus e Hera... Ao ingressar no Curso Secundário, tive a alegria de começar a conviver com muitos colegas de origem japonesa, que me iniciaram no universo fascinante das religiões e mitologias orientais, com uma ênfase muito especial no Budismo. Comecei a estudar a língua nipônica e a freqüentar grupos que praticavam as artes tradicionais do Japão, especialmente teatro, dança e música folclórica. Um dia , um professor de teatro me emprestou um livro de mitologia budista, explicando-me que esse estúdio era de vital importância para a compreensão do Teatro de Nô, um dos mais profundos e sofísticos gêneros teatrais do Japão Clássico. Fiquei fascinado com o mundo dos deuses e demais seres sobrenaturais que os budistas tomaram de empréstimo à Tradição Hindu e que os japoneses assimilaram em sua cosmovisão. 

Certo dia, ao visitar um templo budista japonês em São Paulo, perguntei a um dos monges missionários:

- Aqueles deuses indianos mencionados nos textos sagrados budistas e nas peças teatrais japoneses existem mesmo?

A resposta que obtive foi surpreendente:

- Se V. acreditar neles, eles existem, se não acreditar, não existem.

Na hora fiquei confuso, não entendi nada. Em minha ingenuidade de colegial adolescente, esperava uma resposta direta, tipo “sim” ou “não”. Entretanto, instintivamente tive a percepção de que por detrás daquela resposta enigmática se ocultava algo muito importante e que valia a pena empenhar minha vida nisso. Aprofundei-me então no estudo e na prática do Budismo e hoje sou missionário de uma Escola  tradicional japonesa, a Verdadeira Escola da Terra Pura ou Jôdo Shinshû, fundada pelo Mestre Shinran (1173-1262). Trata-se de uma escola devocional votada para leigos, que tem como principal prática o Nembutsu ou recitação do Nome Sagrado do Buda.

Em meus estudos e práticas fui aos poucos me familiarizando com a maneira budista de lidar com os deuses das antigas religiões étnicas, que contrasta profundamente com a atitude das religiões monoteístas nascidas no Oriente Médio, que consideram os antigos deuses entidades falsas ou demoníacas cujo culto deve ser inteiramente destruído. Em primeiro lugar, é preciso dizer claramente que os deuses não são a temática central do Budismo. Siddhartha Gautama ou Shakyamuni, o Fundador do Budismo, não foi um deus mas sim um homem que ao descobrir o Caminho que liberta o homem do sofrimento e lhe proporciona a Paz Suprema do Nirvana, transcendeu tanto a condição humana quanto a divina, sendo por isso mesmo chamado de “Preceptor dos Devas (deuses) e dos Homens”. Entretanto, o Buda nem negou a existência dos deuses nem desencorajou seus devotos a cultuá-los. Pelo contrário. aconselhou a seus devotos que não abandonassem as devoções anteriores a sua conversão. Os deuses do panteão indiano foram incorporados ao Budismo como guardiães do Dharma (Doutrina ou Lei ensinada pelo Buda) e como protetores dos fiéis discípulos do Buda:

Os próprios devas (deuses) admiram aqueles que cujos sentidos foram sabiamente domados, como um corcel por seu cavaleiro, que se libertou de todo orgulho e paixões. -  Dhammapada (O Caminho da Verdade), VII, 94.

Na medida em que o Budismo foi se expandindo para fora da Índia, ele foi desenvolvendo uma verdadeira “Filosofia da Assimilação”, absorvendo em seu panteão as divindades das religiões étnicas dos povos que o acolheram, identificando-as ou não com as deidades indianas. Veremos alguns exemplos dessa “Filosofia  da Assimilação” no encontro do Budismo com o Helenismo e na formação do Budismo Japonês.

O mais antigo registro da presença de gregos na Índia remonta à expedição de Alexandre o Grande à região Noroeste do subcontinente indiano em 327 antes da Era Comum (a.E.C.). Depois de Alexandre, soldados e colonos gregos estabeleceram cidades e reinos nas regiões da Bactriana (Afeganistão e arredores) e Gandhara (Afeganistão Oriental e Noroeste do Paquistão). Dentre os soberanos de origem grega que reinaram nessas plagas destaca-se a figura de Menandro (denominado Milinda nas Escrituras Canônicas Budistas), que teria exercido o poder entre 160 e 130 na cidade de Sagara. Menandro teria se convertido ao Budismo depois de travar uma série de colóquios filosóficos com um mestre budista de nome Nagasena. As atas desses colóquios chegaram até nós sob a forma de uma Escritura Sagrada denominadaMilindapanha (As Questões do Rei Milinda) que faz parte do Cânone Pali da Escola Theravada de Budismo que predomina nos países da Ásia de Sudeste. Trata-se do primeiro registro de um debate filosófico Oriente-Ocidente a chegar até nós.Foi em Gandhara que pela primeira vez o fundador do budismo foi retratado em esculturas, inspiradas nas estátuas de Apolo. Na mesma região registraram-se também vários casos de sincretismo entre divindades helênicas e búdicas, como o do guardião do Dharma Vajrapani(“Portador do Raio”) e o da deusa da fertilidade Hariti com Deméter ou com Tique, a fortuna. Segundo a lenda que consta das Escrituras Budistas, Hariti era um demônio feminino mãe de 500 filhos que se alimentava da carne de recém-nascidos. O Buda Shakyamuni ocultou um de seus filhos e, desesperada com o desaparecimento do mesmo, ela pediu socorro ao Desperto. Este a fez tomar consciência da dor que ela causava às mulheres ao matar e devorar seus filhos. Arrependendo-se de sua conduta perversa, Hariti converteu-se ao Budismo e tornou-se uma divindade benfazeja, protetora das parturientes e dos recém-nascidos. Hariti é representada como uma mãe cercada de crianças trazendo um beber ao colo e portando numa das mãos uma romã, seu fruto favorito que lhe é ofertado pelos fiéis. Há que lembrar aqui a presença da romã no mito helênico de Deméter e Perséfone: tendo comido uma romã que lhe foi oferecida por Hades, Perséfone tornou-se vinculada para sempre ao mundo subterrâneo. Hariti é cultuada pelos budistas japoneses – principalmente nos templos das Escolas Nichiren e Ritsu - com o nome de Kishimojin. Em São Paulo, no templo central da Missão da Escola Nichiren no Brasil, os visitantes podem admirar uma bela imagem de Kishimojin(1).

Introduzido no Japão em 538 por embaixadores coreanos que ofertaram ao imperador japonês imagens do Buda, textos sagrados e objetos de culto, o budismo, a princípio, não foi percebido em sua essência, como uma doutrina de libertação, mas apenas como um culto de deuses estrangeiros representados por estátuas douradas cuja magia poderia ser eventualmente superior à das divindades locais cultuadas pela religião nativa, o Xintoísmo. Duas facções, uma favorável, outra contrária ao novo culto entraram em luta. Venceu a facção favorável ao culto estrangeiro, mas nem por isso os velhos deuses nacionais foram desprezados. Pouco mais de um século depois da introdução do Budismo, começaram z circular pelo país notícias de que nos grandes santuários das divindades nacionais os deuses xintoístas estavam se manifestando através de oráculos solicitando autorização para se “converterem” ao Budismo e serem aceitos como guardiães e protetores do Dharma. Tal foi o primeiro passo para a formação do sincretismo búdico-xintoísta que caracteriza a religião japonesa até o presente. Junto aos santuários xintoístas foram construídas capelas budistas denominadas Jingûji em que monges budistas se encarregavam de cultuar os deuses “convertidos”  através de ritos budistas. Por outro lado, os grandes templos budistas também passaram a ter em seu recinto capelas xintoístas dedicadas ao culto da divindade pré-budista guardiã da localidade. Hoje em dia, é muito comum encontrar em templos budistas pequenas capelas xintoístas dedicadas ao deus-raposa Inari, um deus muito popular no país, sincretizado com a deidade budista Dakini. Um segundo passo foi o estabelecimento, por influência do Budismo Chinês, da teoria denominada Honji-Suijaku, segundo a qual os seres divinos indianos cuja essência – Honji – seria budista, teriam se manifestado no Japão com a aparência – Suijaku - de deuses xintoístas para se tornarem mais familiares aos japoneses e assim os guiarem mais eficazmente no caminho do Nirvana. Um exemplo famoso é o da deusa solar Amaterasu Ômikanmi, ancestral da Casa Imperial japonesa, que passou a ser entendida como uma manifestação nipônica do Buda Mahavairocana, divindade suprema do panteão do Budismo Esotérico, cuja denominação no idioma japonês é Dainichi (Grande Sol).

No século XIII, época em que viveu o Mestre Shinran, a teoria Honji Suijaku já estava solidamente enraizada no Japão. No hino devocional de sua autoria transcrito no cabeçalho deste trabalho Shinran proclama que os devotos praticantes do Nembutsu são protegidos pelos Deuses do Céu e da Terra. Ao falar nessas divindades, Shinran certamente estava pensando em divindades indianas como Brahma e Indra, no caso de deuses celestiais, e nas Nagas (serpentes) no caso de deidades terrestres. Entretanto, o devoto comum japonês certamente interpreta essa passagem como uma referência aos Ama-tsu-kami (Deuses Celestiais) e Kuni-tsu-kami (Deuses do País) da tradição xintoísta. Por outro lado, sinto que nada me impede, como budista ocidental sem nenhum vínculo com deuses indianos, chineses ou japoneses,, de propor uma releitura “helênica”  identificando os Deuses do Céu com os Olímpicos e os da Terra com os Ctônicos, assim retomando uma tradição greco-budista que remonta ao Budismo de Gandhara.

                   NOTAS BIBLIOGRÁFICAS

(1) Sobre Indo-Gregos e Greco-Budismo:

TARN, W.W. – The Greeks in Bactria and India, Chicago, 3ª ed. 1985.

NARAIN, A. K.  – The Indo-Greeks, Oxford, Clarendon Press, 1957.

WOODCOCK, George  – The Greeks in India, 1966.

The Questions of King Milinda  - translated from the Pali by T. W#. Rhys Davids, “The Sacred Books of East, Vol .  XXXV,  2 vol.,  New York, Dover, 1963.

no site “Neos Alexandria” (http://neosalexandria.org):

Greco-Buddhism: A Brief History

The Syncretism of Thyke Hariti

What Herakles  means to me

Alexandrias of East

(2) Sobre a Filosofia Budista Japonesa da Assimilação (“Honji-Suijaku”):

MATSUNAGA, Alicia - The Buddhist Philosophy of Assimilation – The Historical Development of the Honji-Suijaku Theory, Sophia University  - Tokyio, 1969.

Reverendo Prof. Dr. Ricardo Mário Gonçalves